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quarta-feira, 11 de março de 2020

A busca de Erdoğan pelo controle do norte da Síria

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Artigo a pedido e publicado inicialmente no Internacional da Amazônia

Não haver uma potência que possa brigar por uma possível hegemonia faz, segundo a teoria da estabilidade hegemônica de Gilpin (1988), com que haja crises e instabilidades na região. Como líder natural xiita, o Irã não foge de suas obrigações de defender aliados e buscar um maior poder força, mas peca ao depender da Rússia desde os tempos de URSS para chegar a esses objetivos. Haveria de existir uma potência sunita, com um passado grandioso, aliado a um grande poder econômico-militar que pudesse ser temido e respeitado.

A Turquia vem colocando em prática um suposto projeto de ser essa hegemonia possível, é um dos principais atores na questão da guerra civil Síria, inserido no processo de Astana, nas zonas “seguras” no Norte da síria e no controle de refugiados. Erdoğan recentemente já declarou que não faz tanta questão de fazer parte da Europa (hurriyetdailynews). Esse afastamento do ocidente tem a ver com a retomada da influência turca em países do antigo império. O chamado neo-otomantismo se fortalece quando há um equilíbrio entre o islã (cultura) e o kemalismo, esse foi a ocidentalização da Turquia pós queda do império, seu objetivo foi a busca por melhores índices econômicos e científicos, o objetivo é fazer a Turquia voltar a ser o grande símbolo sunita da região, tendo em vista o forte poder econômico, político e militar.

Desde o início da guerra civil na síria um país em particular vem sendo o principal ponto de apoio (tampão) da OTAN e seus aliados na crise dos refugiados. A Turquia vem trilhando ano após ano uma política de vizinhança agressiva com o objetivo de colocar o país numa zona de segurança onde a desenfreada onda de imigração em direção à anatólia tenha fim, são quase quatro milhões de pessoas segundo a ACNUR.

O norte da Síria, fronteira com a Turquia


Erdoğan joga contra tudo e todos que estiverem entre seus interesses na região, principalmente quando se trata de acontecimentos que podem aumentar ainda mais o fluxo de refugiados. Os confrontos em Efrain e Ildilib escancaram a mudança de postura do país no jogo internacional, aquele foi marcado por confrontos contra os curdos, aliados dos americanos, já este, contra os sírios de Assad, aliados dos Russos. 

Escrever sobre uma possível atitude Russa acerca do último caso citado seria um palpite, já Assad parece finalmente perceber que a antiga potência sunita está voltando ao tabuleiro, segundo ele, a Turquia está dando suporte a grupos rebeldes (Curdos de maioria sunita). 

Seguindo a paisagem que nos está sendo apresentada por Erdoğan, é nítida a sensação que os Turcos, mesmo dizendo a poucos dias que procuram as vias diplomáticas, irão defender o norte da Síria como se fosse o próprio território com ou sem mais conflitos.

Referências:


Turkish delegation to visit Russia for Idlib talks, hurriyetdailynews

Turkey to push back Assad forces from observation posts, Anadolu

Minareci, Semih, Search for Identity: Turkey's Identity Crisis (April 30, 2008). Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=1297378 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.1297378

Turkey doesn’t need EU anymore, but won’t quit talks: President Erdoğan, hurriyetdailynews

GILPIN, Robert. The theory of hegemonic war. The Journal of Interdisciplinary History, v. 18, n. 4, p. 591-613, 1988.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O que está por trás de Erdoğan?

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O papel de Erdoğan é algo extremamente simples no tocante aos estudantes do oriente médio, mas um enigma para aqueles que são paladinos do conhecimento válido (Eurocêntricos), não é difícil ver pessoas “importantes” dando “pitaco” no tema e de forma insípida analisam à luz de seus grandes teóricos indiscutivelmente eurocêntricos. A Europa vem a tempos rejeitando uma possível entrada do país na União Europeia por questões culturais como citado por  Samuel Huntington"Since the European nations continue to believe that turkish people are not culturally european, they won't let Turkey enter the EU".
 Erdoğan é presidente da Turquia desde 28 de agosto de 2014

Leia: Do Império Otomano à República da Turquia

Logo após a criação da república (1923) começou uma era chamada de Kemalismo que de forma resumida seria uma mudança avassaladora que ocorreu no país rumo ao positivismo francês, jogando na lata do lixo todo o legado do antigo império e suas raízes religiosas. A nova paisagem político cultural turca animou o ocidente, em especial a Europa que começava a olhar a turquia como um potencial parceiro econômico. Os turcos logo se viraram para o ocidente e rejeitaram a sua natural liderança no “oriente médio”.

O modelo Kemalista terá grande sucesso econômico comparado com as duas potências da região:


O problema começa quando a história e os costumes são roubados de um povo, vários artigos relatam que a mando de kemalistas inúmeras fontes históricas foram alteradas, além da aproximação do idioma local com os idiomas latinos da Europa. Toda essa aproximação com os países europeus fez uma gigantesca confusão na cabeça dos turcos.

A final, quem (ou o que) são os Turcos? 
  1. País liberal e forte aliado da Europa? vendendo a alma ao diabo para entrar na UE?
  2. País historicamente líder sunita onde nossos maiores aliados são os antigos irmãos de Império Otomano(Osmanlı imparatorluğu)?
Erdoğan representa a quebra do paradigma kemalista, aos poucos a turquia vai se transformando em uma potência no oriente médio como fora na época de império, a aproximação do partido criado por Erdoğan é um referência clara que o Islã tem presença forte no governo, mas nem sempre foi assim.

O Partido da Justiça e Desenvolvimento (Adalet ve Kalkınma Partisi), o partido criado pelo presidente no início era fortemente ligado à Europa, seguia aquilo que hoje está se espalhando no Brasil; Liberal na economia e conservador nos costumes, mas a visão do partido sobre a Europa foi mudando à partir da total falta de sintonia entres os países da união europeia no caso dos refugiados sírios, a Turquia se sente abandonada por ser obrigada a abrir suas fronteiras por seguir algumas leis pré Europa e os países do bloco nada fazem de fato a não ser esconder-se.

UNHCR Turkey - Key Facts and Figures - October 2018 
Leia: PKK, Estado Unidos e o processo de Astana

Ao assinar o processo de Astana com o objetivo de tentar dar uma resposta à crise dos refugiados, em termos práticos, aliou-se a dois "inimigos dos EUA", Rússia e Irã, que nos faz lembrar do chamado "Neo-Otomantismo", onde a turquia muda seu posicionamento de coadjuvante na Europa para tornar-se um gigante no oriente médio, essa prática demonstra que Erdoğan segue em busca de liderar o oriente médio, onde a turquia começa a ter de volta um sentimento realista: a Turquia não é europeia, mas uma potência sunita com poderes de influência até mesmo sobre Israel, onde é exaustivamente estudada por grandes nomes das mais diversas universidades e professores altamente renomados.

A recente e patética guerra comercial de Trump fez que ficasse claro de modo prático que volta a ressurgir o "ser turco", não só pelas medidas corajosas do presidente no tocante ao boicote ao dólar ou o fechamento de bancos estrangeiros, mas quando o povo começa por conta própria boicotar os produtos dos EUA, povos de aliados sunitas como a República Islâmica do Paquistão começaram a comprar  Lira Turca para ajudar na taxa de câmbio.

O aumento no número de alistamento militar também é um forte reflexo de um povo que está se redescobrindo, tendo em vista que os antigos aliados estão apoiando terroristas que há 31 anos vêm criando o terror no país, os mesmos que arrastam a guerra da síria para o inacabável, além da inquestionável pesquisa de adesão turca à Europa que vem caindo de modo considerável; em 2004 cerca de 71% dos turcos queriam entrar no bloco, hoje é menos de 50%. O próprio presidente já falou que a Turquia não precisa mais entrar na União Européia, a União Europeia depende mais da Turquia que contrário, principalmente depois da crise do Brexit.

respondendo a pergunta, O que está por trás de Erdoğan?

Um líder que não tem "vergonha" da descendência histórica do país e sabe do poder e responsabilidade da Turquia no Oriente médio, diferente daqueles que por décadas lideraram o país com um viés eurocêntricos, fraudando a história e tendo vergonha do império otomano e sua liderança religiosa. Sem cair de joelho para o positivismo francês ou vender a alma para seja lá quem quer que seja por um assento na União Europeia.

Referências:

Minareci, Semih, Search for Identity: Turkey's Identity Crisis (April 30, 2008). Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=1297378 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.1297378

Turkey doesn’t need EU anymore, but won’t quit talks: President Erdoğan: hurriyetdailynews

domingo, 2 de setembro de 2018

Do Império Otomano à República da Turquia

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O Tratado de sèvres (1920) dividirá o Império entre os vencedores da primeira guerra mundial e alguns grupos que viviam em solo Otomano como Armênios e Curdos. No caso da Grécia estará diante de um antigo sonho de reconquistar Istambul (Constantinopla), mas a área de ligação da Anatólia com a Europa estará sob comando internacional, assim como o restante do império que continuará a existir, mas sem notável influência turca, mas sim uma total dominação inglesa e francesa.

Império pós tratado de Sèvres
Não era interessante acabar com o Império no momento, tendo em vista sua capacidade política, além da afinidade cultural com os países de maioria muçulmana. Para muitos especialistas é o começo dos principais problemas que temos no oriente médio até os dias atuais. De acordo com Asher Susser, PHD e professor da universidade de Tel Aviv, criou-se países antes de nações, gerando assim uma profunda crise de identidade e ampla dominação dos países ocidentais.

Descontentes com os novos líderes do império, principalmente depois que assinaram o tratado de Sèvres, as forças nacionalistas turcas começam a se mobilizar, em contrapartida em 1919 a Grécia, apoiada por França, Inglaterra e Armênia começam a invadir o decadente império, rumo a Istambul, começando assim a guerra da libertação turca. A Grécia dormirá em 1919 sonhando com a volta de “Constantinopla” e três anos depois despertará com uma das derrotas mais humilhantes do século XX.

A guerra terá os nacionalistas turcos, liderados por Mustafá Kemal (homem que depois será chamado de pai dos turcos (Atatürk) e considerado um gênio militar, era profundo conhecedor da área atacada pela Grécia, onde por toda a vida militar defendeu dos países ocidentais) apoiados pela Rússia em troca de territórios nos Balcãs, contra o Império Otomano, Grécia, Armênia, França e Reino Unido. A esmagadora vitória turca virá fazendo uso de táticas de guerrilha, além de com uma ótica do estudo de Raporport¹, usando também táticas de terrorismo, tendo em vista os repetitivos massacres (também chamados de genocídios) a civis gregos e armênios.

Após a vitória turca (1923), foi assinado o tratado de lausanne, recuperando grade parte da Anatólia e no mesmo ano foi criada a república da Turquia que teve como o primeiro baskan², Mustafa Kemal. Com o nascimento da República, grande parte dos hábitos e valores otomanos vão se perdendo, o respeito a população multiétnica do país foi a primeira delas, principalmente se esses povos foram um dos responsáveis pela queda do antigo império como Grécia e Armênia.

O começo do sentimento de “ser turco”(nacionalismo da população), é sanguinário, além dos 250 mil civis gregos e Armênios (500 mil civis) mortos na guerra da libertação, mais de 1.5 milhão de Gregos serão violentamente expulsos da Turquia, além do não reconhecimento dos territórios curdos. O caso mais lembrado é o genocídio Armênio, onde cerca de 1.5 milhão de pessoas foram executadas por ajudar o império Russo na guerra Russo-Otomana em 1915 .

1 - David C. Rapoport, Four waves of terrorism
2 - Baskan no idioma turco significa presidente